{"id":3752,"date":"2025-11-28T18:38:20","date_gmt":"2025-11-28T18:38:20","guid":{"rendered":"https:\/\/ogpa.com.br\/?p=3752"},"modified":"2025-11-30T15:08:59","modified_gmt":"2025-11-30T15:08:59","slug":"licenciamento-ambiental-entre-o-discurso-da-modernizacao-e-os-riscos-de-retrocesso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ogpa.com.br\/index.php\/2025\/11\/28\/licenciamento-ambiental-entre-o-discurso-da-modernizacao-e-os-riscos-de-retrocesso\/","title":{"rendered":"Licenciamento Ambiental: entre o discurso da moderniza\u00e7\u00e3o e os riscos de retrocesso &#8211; J\u00e9ssica Ara\u00fajo"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"860\" height=\"570\" src=\"https:\/\/ogpa.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/imagem_materia-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3739\" srcset=\"https:\/\/ogpa.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/imagem_materia-1.jpg 860w, https:\/\/ogpa.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/imagem_materia-1-300x199.jpg 300w, https:\/\/ogpa.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/imagem_materia-1-768x509.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 860px) 100vw, 860px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Vota\u00e7\u00e3o da derrubada dos vetos presidenciais \u00e0 Lei Geral de Licenciamento Ambiental <\/strong>(Fonte: Ag\u00eancia Senado)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify has-text-align-justify\"><a href=\"https:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/materias\/2025\/11\/27\/congresso-derruba-52-itens-de-veto-a-lei-geral-do-licenciamento-ambiental#:~:text=Congresso%20derruba%2052%20itens%20de%20veto%20\u00e0%20Lei%20Geral%20do%20Licenciamento%20Ambiental,-Compartilhe%20este%20conte\u00fado&amp;text=Por%20maioria%20de%20votos%20em,Lei%2015.190%2C%20de%202025).\" class=\"ek-link\">A aprova\u00e7\u00e3o da Lei Geral do Licenciamento Ambiental<\/a> foi celebrada como marco de governan\u00e7a, prometendo simplifica\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a jur\u00eddica para empreendedores. Todavia, ao ser analisada segundo a Constitui\u00e7\u00e3o Federal, os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil e a realidade amaz\u00f4nica, a nova lei mostra-se carregada de contradi\u00e7\u00f5es e potenciais retrocessos. Essas contradi\u00e7\u00f5es tornam-se mais evidentes ao se ler o artigo 225 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988<sup data-fn=\"1e8b358c-0335-4df8-94b2-c1650f74b3d9\" class=\"fn\"><a href=\"#1e8b358c-0335-4df8-94b2-c1650f74b3d9\" id=\"1e8b358c-0335-4df8-94b2-c1650f74b3d9-link\">1<\/a><\/sup>, que garante o direito fundamental a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, responsabilizando o poder p\u00fablico e a sociedade pela sua prote\u00e7\u00e3o para as gera\u00e7\u00f5es presentes e futuras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify has-text-align-justify\">A Lei n\u00ba 15.190\/2025 flexibiliza etapas essenciais do licenciamento, abre caminho para modalidades simplificadas como a Licen\u00e7a por Ades\u00e3o e Compromisso (LAC) e a Licen\u00e7a Ambiental Especial (LAE). Apesar de aparentemente t\u00e9cnicas, essas categorias podem significar na pr\u00e1tica substituir a an\u00e1lise pr\u00e9via do \u00f3rg\u00e3o ambiental por declara\u00e7\u00f5es unilaterais do empreendedor, deslocando a verifica\u00e7\u00e3o de conformidade para depois da concess\u00e3o da licen\u00e7a. Essa altera\u00e7\u00e3o diminui o efeito preventivo do procedimento e limita a detec\u00e7\u00e3o antecipada de riscos ambientais pelo Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify has-text-align-justify\">Outro ponto preocupante \u00e9 a possibilidade de exclus\u00e3o do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) sempre que a autoridade considerar inexistir significativa degrada\u00e7\u00e3o ambiental. Esta cl\u00e1usula, vaga por natureza, entrega \u00e0 discricionariedade administrativa uma decis\u00e3o que deveria ser pautada por crit\u00e9rios t\u00e9cnicos objetivos. Na Amaz\u00f4nia paraense, onde <a href=\"https:\/\/acervo.socioambiental.org\/sites\/default\/files\/documents\/10d00735.pdf#:~:text=impactos%20sin\u00e9rgicos%20e%20cumulativos%20de%20empreendimen-%20tos,efetiva\u00e7\u00e3o%20dos%20direitos%20constitucionais%20pre-%20cisariam%20ser\" class=\"ek-link\">impactos cumulativos e sin\u00e9rgicos s\u00e3o a regra,<\/a> a dispensa de um EIA equivale a um salto no escuro com a possibilidade de licenciar atividades de m\u00e9dio porte que, somadas, t\u00eam efeitos devastadores sobre rios, florestas e comunidades tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify has-text-align-justify\">Tamb\u00e9m merece cr\u00edtica a forma como a lei reorganiza a participa\u00e7\u00e3o social. Embora reconhe\u00e7a sua import\u00e2ncia de maneira formal, a Lei Geral do Licenciamento Ambiental cria modalidades como a LAC, cuja caracter\u00edstica central \u00e9 a concess\u00e3o autom\u00e1tica da licen\u00e7a mediante declara\u00e7\u00e3o do empreendedor. Como essa modalidade prescinde de an\u00e1lise pr\u00e9via e n\u00e3o contempla etapa de participa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, como audi\u00eancia ou consulta em sentido amplo, o procedimento inviabiliza a apresenta\u00e7\u00e3o e a considera\u00e7\u00e3o de contribui\u00e7\u00f5es da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify has-text-align-justify\">Como exemplo podemos citar o art. 41, \u00a71\u00ba, que determina que a consulta p\u00fablica n\u00e3o suspende os prazos do licenciamento e deve ocorrer simultaneamente \u00e0 an\u00e1lise t\u00e9cnica do \u00f3rg\u00e3o licenciador, o que reduz a capacidade de que as contribui\u00e7\u00f5es apresentadas sejam de fato examinadas e consideradas antes da decis\u00e3o final. O enfraquecimento da participa\u00e7\u00e3o social n\u00e3o decorre apenas de um artigo que a elimina expressamente, mas da ado\u00e7\u00e3o de um modelo que reduz o controle social e limita o papel das comunidades afetadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify has-text-align-justify\">Desse modo, a lei pode enfraquecer tamb\u00e9m a consulta pr\u00e9via, livre e informada; direito garantido aos povos ind\u00edgenas, quilombolas e ribeirinhos e consolidado tanto no plano nacional quanto internacional, consoante a <strong>Norma da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho n\u00ba 169<\/strong><sup data-fn=\"05c26105-9589-4889-bd39-dfee29a21b43\" class=\"fn\"><a href=\"#05c26105-9589-4889-bd39-dfee29a21b43\" id=\"05c26105-9589-4889-bd39-dfee29a21b43-link\">2<\/a><\/sup>. Reduzindo os espa\u00e7os democr\u00e1ticos de debate e escuta, nega-se voz a quem mais sofre os impactos diretos de grandes empreendimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify has-text-align-justify\">A Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988 somada \u00e0 <strong>Lei Complementar n\u00ba 140\/2011<\/strong><sup data-fn=\"08aaa3d7-0182-4946-b22e-2c64336fb2ba\" class=\"fn\"><a href=\"#08aaa3d7-0182-4946-b22e-2c64336fb2ba\" id=\"08aaa3d7-0182-4946-b22e-2c64336fb2ba-link\">3<\/a><\/sup> estabelece um federalismo cooperativo, onde Uni\u00e3o, Estados e munic\u00edpios compartilham responsabilidades ambientais. No entanto, a nova lei, ao uniformizar normas em excesso e delegar poderes vagos aos Estados, corre o risco de gerar competi\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria entre eles. Cada Estado pode criar licen\u00e7as espec\u00edficas e simplificadas (art. 5\u00ba, \u00a72\u00ba e 18), ainda garante-se ao \u00f3rg\u00e3o licenciador um alto n\u00edvel de liberdade para definir a tipologia de empreendimento e graus de impacto. Como consequ\u00eancia, essa estrutura normativa d\u00e1 margem a interpreta\u00e7\u00f5es permissivas e a ado\u00e7\u00e3o de regulamenta\u00e7\u00f5es estaduais menos rigorosas que podem comprometer a prote\u00e7\u00e3o ambiental e ampliar a inseguran\u00e7a jur\u00eddica ambiental no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify has-text-align-justify\">Al\u00e9m de viola\u00e7\u00f5es constitucionais, entre as quais o dever de proteger o meio ambiente, o condicionamento da atividade econ\u00f4mica ao respeito ambiental e a responsabilidade compartilhada de proteger a natureza, a Lei Geral do Licenciamento tamb\u00e9m ignora compromissos internacionais firmados pelo Brasil. Isso ocorre porque o licenciamento ambiental deveria incorporar a vari\u00e1vel clim\u00e1tica, avaliando impactos sobre sumidouros de carbono, emiss\u00f5es de gases de efeito estufa e biodiversidade. Ao n\u00e3o se ocupar desta quest\u00e3o, o pa\u00eds se exp\u00f5e a acusa\u00e7\u00f5es de descumprimento de acordos multilaterais e compromete sua credibilidade no cen\u00e1rio internacional. Vale ressaltar que cada licen\u00e7a concedida sem a aprecia\u00e7\u00e3o de fatores clim\u00e1ticos configura um problema local, que tamb\u00e9m representa um passo em falso na agenda global de enfrentamento \u00e0 crise clim\u00e1tica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify has-text-align-justify\">A conclus\u00e3o \u00e9 cristalina, a Lei Geral do Licenciamento Ambiental n\u00e3o representa avan\u00e7o s\u00f3lido, mas sim uma mera chancela burocr\u00e1tica para projetos de alto impacto, que enfraquece a prote\u00e7\u00e3o constitucional do meio ambiente, relativiza a participa\u00e7\u00e3o social, compromete compromissos internacionais e exp\u00f5e os biomas a riscos inaceit\u00e1veis. O desafio \u00e9 resistir por meio do controle judicial e da press\u00e3o social. Em vez de simplificar a prote\u00e7\u00e3o ambiental o Brasil precisa \u201ccomplexificar a an\u00e1lise\u201d para fazer jus \u00e0s peculiaridades de um bioma como a Amaz\u00f4nia. Cada decis\u00e3o de licenciamento n\u00e3o pode ser tratada como ato administrativo isolado, mas sim como uma decis\u00e3o de longo prazo que, se ignorada, pode comprometer n\u00e3o s\u00f3 os recursos naturais, mas a credibilidade jur\u00eddica do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">J\u00e9ssica Ara\u00fajo \u00e9 advogada, mestranda em Economia (PPGE\/UFPA)<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"1e8b358c-0335-4df8-94b2-c1650f74b3d9\">Art. 225. Todos t\u00eam direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial \u00e0 sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder P\u00fablico e \u00e0 coletividade o dever de defend\u00ea-lo e preserv\u00e1-lo para as presentes e futuras gera\u00e7\u00f5es. <a href=\"#1e8b358c-0335-4df8-94b2-c1650f74b3d9-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"05c26105-9589-4889-bd39-dfee29a21b43\">A OIT 169 \u00e9 a conven\u00e7\u00e3o internacional que garante os direitos dos povos ind\u00edgenas e tribais, incluindo cultura, territ\u00f3rio e participa\u00e7\u00e3o. Ela estabelece a Consulta Pr\u00e9via, Livre e Informada para decis\u00f5es que afetem esses povos. No Brasil, tem for\u00e7a supralegal e obriga governos e empreendimentos a cumprir esses direitos. <a href=\"#05c26105-9589-4889-bd39-dfee29a21b43-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"08aaa3d7-0182-4946-b22e-2c64336fb2ba\">A Lei  Complementar n\u00ba  140\/2011 define como Uni\u00e3o, Estados e Munic\u00edpios devem dividir as compet\u00eancias de licenciamento, fiscaliza\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o ambienta<strong>l<\/strong> no Brasil. Ela busca evitar conflitos, determinando quem licencia o qu\u00ea e fortalecendo a coopera\u00e7\u00e3o entre os entes federados. <a href=\"#08aaa3d7-0182-4946-b22e-2c64336fb2ba-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A aprova\u00e7\u00e3o da Lei Geral do Licenciamento Ambiental foi celebrada como marco de governan\u00e7a, prometendo simplifica\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a jur\u00eddica para empreendedores. Todavia, ao ser analisada segundo a Constitui\u00e7\u00e3o Federal, os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil e a realidade amaz\u00f4nica, a nova lei mostra-se carregada de contradi\u00e7\u00f5es e potenciais retrocessos. 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