
Os projetos hidrelétricos têm destaque na história contemporânea da Amazônia. Concebidos a partir das ideias de desenvolvimento e produção de energia, os barramentos também produziram transformações socioambientais nos territórios onde foram implantados. Deslocamentos populacionais, perda de territórios e modos de vida, alterações no curso natural de rios, conflitos e disputas em torno das formas de reparação são inerentes a estes tipos de projetos.
Entretanto, é necessário enxergar além da infraestrutura das barragens. Investigar quem decide sobre os grandes projetos, quais interesses orientam sua implantação, como seus custos/benefícios e riscos/danos são distribuídos e de que maneira as populações atingidas reagem às transformações impostas aos seus territórios.
É nessa perspectiva que o Grupo de Pesquisa Grandes Projetos na Amazônia (GPA) vem fortalecendo uma agenda de investigação sobre grandes projetos hidrelétricos, conflitos socioambientais e populações atingidas. A iniciativa também representa uma oportunidade de aprofundamento das relações entre a pesquisa acadêmica e organizações sociais que há décadas lutam em defesa dos direitos das comunidades afetadas.
Um interlocutor fundamental nesse processo é o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).
Nos últimos meses, encontros entre pesquisadores do GPA e integrantes do MAB vêm construindo espaços de diálogo sobre as experiências das populações atingidas. Em reunião realizada em Tucuruí, a apresentação da proposta de pesquisa às lideranças locais permitiu discutir a dimensão cultural dos atingidos, a participação das lideranças e comunidades na própria construção da pesquisa e os atuais mecanismos de financiamento de planos e ações de desenvolvimento territorial.
A aproximação com o MAB também coloca uma questão importante para a própria prática da pesquisa: como agregar o conhecimento daqueles que experimentam diretamente as consequências dos grandes projetos a uma uma investigação acadêmica sobre grandes projetos?
Movimentos sociais, comunidades e organizações ao longo de décadas de mobilização produzem interpretações sobre os grandes projetos, identificam seus danos, constroem registros e memórias dos territórios modificados e desenvolvem estratégias de resistência e reivindicação de direitos. Reunir universidade e movimentos sociais pode contribuir para uma maior compreensão das relações entre o território, os conflitos e a resistência.
Em maio de 2026 o GPA realizou chamada de voluntários para participação de estudantes, pesquisadores e integrantes do movimento de atingidos por barragens em pesquisa dedicada aos grandes projetos hidrelétricos, conflitos socioambientais e atingidos. A proposta é compreender como grandes projetos são perenes em reorganizar territórios, modificar relações sociais e gerar conflitos, mesmo a conclusão das obras físicas.
Para o Observatório dos Grandes Projetos na Amazônia (OGPA), acompanhar essa agenda significa também fortalecer uma de suas linhas fundamentais de atuação: produzir e divulgar conhecimento crítico sobre os grandes projetos amazônicos, ao mesmo tempo em que amplia o diálogo com comunidades, movimentos sociais e organizações que constroem formas de defesa do território.
