Risco do bolsonarismo à Amazônia: um voto à vida como alternativa – André Farias


O que está em jogo para a Amazônia quando os brasileiros escolhem um projeto político para o país?  Alguns acreditam que as explicações racionais não ajudarão. Mas talvez seja o campo em que a ciência tenha sua melhor contribuição. Deixemos as questões do espírito para a arte ou para a religião. Por falar nisso, as eleições presidenciais não são uma “guerra santa”, “do bem contra o mal”. Bem e mal são construções sociais e políticas. Embora respeite todas as religiões, a questão é política. 

É pela política enviesada que setores conservadores e segmentos das forças de segurança ampliaram sua presença política, ocuparam espaços de poder, mas a que custo? Pela alienação de seus fiéis e pela submissão ao culto à riqueza e ao consumo? Pela ameaça à vida pelo uso de armas e da violência? Respeito as religiões e defendo que a segurança é um aspecto importante da vida em sociedade, mas os dirigentes dessas instituições não estariam instrumentalizando politicamente a fé? Não estariam usando indevidamente a fé alheia? Diria minha mãe evangélica: “não estariam blasfemando?”  Milicianos não teriam interesses escusos nas vendas de armas e na incitação à violência? 

Observe essas questões iniciais em sua casa, em família, na igreja e no trabalho. Depois, convido você a refletir sobre cinco aspectos antes de comparecer às urnas no segundo turno. Vejam:

1- Na Amazônia, os efeitos das políticas ambientais adotadas durante o governo Bolsonaro foram particularmente expressivos. Entre 2019 e 2022, as taxas anuais de desmatamento permaneceram em patamares elevados e alcançaram mais de 13 mil km² em 2021, segundo o PRODES/INPE. Mais do que números, esses dados expressam uma determinada concepção de território e de natureza, na qual a expansão das atividades econômicas sobre a floresta foi colocada em tensão com a proteção ambiental e os direitos territoriais. 

Foram sobretudo as populações mais vulneráveis — entre elas povos indígenas, comunidades tradicionais e moradores das periferias urbanas — que enfrentaram as mais graves consequências da pandemia de COVID. O intenso desmatamento, a contaminação decorrente da atividade de garimpo ilegal e o uso de agrotóxicos no agronegócio causam danos que atingem diretamente esses territórios e suas populações. Aqui, os efeitos das mudanças climáticas ameaçam a vida de forma imediata, secando nossos rios de onde vêm os peixes que nos alimentam. Aqui os monocultivos ameaçam nosso açaí de cada dia.  Aqui, o crime organizado, em conluio com as milícias, faz de nossos rios vias de transporte para que as drogas invadam nossos bairros e casas.

2- Durante a gestão ambiental de Bolsonaro — nos tempos do “deixa a boiada passar” — houve a relativização do licenciamento ambiental e o sucateamento da governança do meio ambiente; servidores públicos perseguidos, lideranças que defendiam o meio ambiente assassinadas. As cidades se tornaram mais insalubres, doenças e fome se espalharam e atingiram mais os pobres, negros, mulheres, crianças e idosos. A pobreza, a contaminação e a degradação ambiental sustentaram um modo de vida no Sul e no Sudeste do país que é insustentável. Em determinadas situações, o Estado pode estar presente de maneira seletiva: fiscaliza alguns territórios, flexibiliza determinadas regras, fortalece interesses econômicos e deixa outros grupos expostos. 

3- As repercussões da agressão aos povos e aos ecossistemas da Amazônia ferem de morte o Brasil e o mundo. Quando a floresta é destruída em grande escala, alteram-se processos ecológicos e climáticos que ultrapassam os limites da própria Amazônia. Quando ameaçam os povos indígenas, quilombolas, pescadores e extrativistas, aniquilam as alternativas de outros modos de vida, mais adequadas à natureza. Portanto, mesmo que para você, brasileiro, a Amazônia seja distante e desconhecida, saiba que diz respeito a todos nós.

4- Chegamos ao nosso ethos patriótico. Não ao patriotismo baseado na hipocrisia de vestir a camisa da seleção brasileira, ajoelhar-se aos EUA e clamar por uma intervenção americana. Patriotismo, neste contexto, não pode ser reduzido a símbolos nacionais. Defender a soberania brasileira significa também defender a capacidade do país de decidir sobre seu território, seus recursos naturais e seu patrimônio socioambiental, sem subordinação automática a interesses econômicos ou geopolíticos externos.  Precisamos nos orgulhar de quem somos, povo brasileiro, como diria Darcy Ribeiro.

5- Ainda temos tempo e alternativa, uma esperança de vida e paz. Essa alternativa é o programa de governo de LULA. Por mais que seja contraditório, na sua política de alianças, que o traiu em todas as eleições. A força do povo pode levantar um ideal de libertação do ódio, contra as armas e a violência. Os investimentos em saúde, educação e meio ambiente foram importantes, mas precisam aumentar. Os créditos devem ser direcionados aos pequenos, aqueles que realmente geram empregos, e não aos grandes que sonegam e agem em conluio com banqueiros. 

A defesa de nosso país deve andar de mãos dadas com a conservação da Amazônia. A desigualdade de renda pode continuar sendo combatida não apenas por programas sociais, mas também pela geração de trabalho e renda em nossos próprios territórios, produzindo alimentos para nosso povo, e não commodities para exportação. Entre os projetos em disputa, o projeto de LULA é o mais compatível com a defesa da democracia, das políticas ambientais, dos direitos territoriais e da redução das desigualdades.

Por tudo isso, este texto é dirigido especialmente àqueles que não votaram no primeiro turno e àqueles que ainda estão indecisos. A dúvida faz parte da democracia. Não se trata de escolher entre pessoas perfeitas ou projetos sem contradições, mas de refletir sobre o país que queremos construir e sobre as consequências de cada escolha para a Amazônia, para os territórios e para as próximas gerações. Se você acredita que democracia, solidariedade, justiça social, proteção da natureza e respeito à diversidade devem estar no futuro do Brasil, considere o que está em jogo antes de decidir. Que o voto seja consciente, livre e comprometido com a vida.

André Farias é sociólogo, líder do Grupo de Pesquisa Grandes Projetos na Amazônia

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