
A organização do mundo capitalista possui uma divisão internacional do trabalho. No caso brasileiro, essa divisão do trabalho se impõe na forma de um Estado nacional baseado na produção de commodities, na industrialização tardia e urbanização desigual, causadores de degradação socioambiental. E agora as autoridades supranacionais e interinstitucionais, pilares dessa organização mundial, propõem resolver a agenda climática “salvando a Amazônia”? Sendo assim, por que os recursos anunciados para “preparar Belém para a
COP” continuam a reforçar tal modelo? 5 bilhões do BNDES; milhões do Fundo Amazônia e outros milhões captados em nome da “defesa do meio ambiente” serão usados para financiar grandes projetos urbanos (GPU), como, por exemplo, a propalada “Avenida
Liberdade” (cujo traçado rasga ao meio três unidades de conservação e um território quilombola), liberdade de quem? Do mercado?
Parece-nos que o capital e suas formas de aliança com o Estado, nem sempre republicanas e transparentes, serão os maiores beneficiados pelas obras. Construtoras executarão a maioria dos recursos em projetos para “embelezar” a cidade, nos padrões ocidentais e elitistas, repetindo uma tentativa de higienização social que tantos males trouxe às populações amazônicas em ciclos econômicos passados. Pequenos projetos includentes e sustentáveis podem entrar na agenda, mas como componentes da maquiagem ecológica.
Em entrevista na pesquisa que desenvolvo sobre os Grandes Projetos Urbanos na Região Metropolitana de Belém, um interlocutor disse: “Professor, mas eles não contam que os estrangeiros irão querer conhecer as periferias, a situação do povo pobre”. Quem são eles? Os mandatários já conhecem muito bem os pobres e miseráveis, embora a maioria só se lembre deles nas eleições. Os capitalistas que lucram com a tal “economia verde”, talvez tenham como única preocupação onde estacionar seus jatinhos particulares, já que
Val-de-Cans se tornará pequeno, como aconteceu em Glasgow, na última COP. Resta a esperança dos movimentos sociais não serem cooptados para o canto da Iara, nosso mito da sereia. O novo ambientalismo está numa encruzilhada: mostrar as mazelas que vivemos
e cobrar alternativas urgentes e viáveis, ou se contentar em aplaudir os discursos e tirar selfies para alimentar o narcisismo de pseudo-lideranças.
Um aviso: como esta análise se diferencia da maioria, não significa que concordemos com aquilo que a ultra direita bolsonarista estava conduzindo na Amazônia, pelo contrário, a fase da barbárie ambiental trouxe destruição dos ambientes naturais e grupos étnicos, assim
como armou grileiros, pecuaristas, deixando “a boiada passar”. Além disso, milicianos em aliança com o crime organizado nas cidades faziam valer a “lei do mais forte”. Entretanto, as contradições existem também na atualidade, expressas nos compromissos com o
agronegócio e mineradoras e indústria. Vejamos o caso nacional do pacote para o “carro popular” que beneficia a indústria e acaba gerando mais poluição atmosférica e gases de efeito estufa.
Enquanto isso, Belém sofre com a falta de água potável nas torneiras, mais de 80% da população não tem coleta e tratamento de esgoto, também há falta de gestão dos resíduos sólidos, transformando a capital num “lixão” a céu aberto. Além disso, as últimas chuvas torrenciais, têm causado sérios alagamentos, quedas de árvores e não possuímos um radar meteorológico para monitorar as precipitações e preparar medidas preventivas. Então, não teríamos outras prioridades na agenda da (COP) 30? Algum apressado e utilitarista pode perguntar: quais as respostas? Só sabe criticar, e as soluções? Digo-lhes, não há respostas simples, pois além da dependência econômica, temos a colonização do saber. A dupla colonização pela dependência das tecnologias mundiais, e aos centros de saber do sul e sudeste do Brasil, que ora se apresentam como “sumidades na Amazônia “, revela a terceirização na ciência e dos cientistas locais. Acredito na construção de alternativas construídas coletivamente, aliando conhecimento científico interdisciplinar e em múltiplas escalas, com saberes populares de quem vive as agruras da Amazônia, mas aprendeu a lidar com as adversidades e encontra, a despeito de tudo, alegria e bem viver nas cidades, rios e florestas.
André Farias.
Pesquisador do Núcleo de Meio Ambiente da UFPA.
