
Achille Mbembe1 destaca que a categoria raça foi responsável por catástrofes históricas, “devastações psíquicas assombrosas e incalculáveis crimes e massacres“. Esse legado não desapareceu. Em um “imperialismo da desorganização” fabrica desastres e naturaliza a exceção. Sob o véu de um “racismo sem raças” a discriminação se difunde, reiteradamente investindo com violência contra corpos negros, indígenas e pobres. Para Mbembe o resultado é a expansão global da lógica colonial que reduz vidas a corpos completamente descartáveis.
Na Vila da Barca isso se traduz em falta de saneamento básico, enquanto o Estado investe milhões para embelezar o bairro nobre do Umarizal. Não se trata apenas de desigualdade, é a reprodução ampliada de um sistema que associa corpos negros e indígenas à natureza a ser dominada2, justificando seu abandono e descaso. O projeto Nova Doca é um exemplo dessa dupla violência — contra humanos e ecossistemas.
Enquanto o canal é despoluído para turistas, esgoto, entulhos e resíduos da obra são desviados para a comunidade predominantemente negra, onde crianças e idosos respiram poeira e ar contaminado. Essa prática ecoa o antropocentrismo colonial3, a ideia de que a natureza (e os corpos racializados) existe para ser explorada. A Vila da Barca assim torna-se uma cena colonial contemporânea, onde o retrato do capitalismo verde da COP 30 se choca com a realidade de quem vive ao lado do esgoto.
A lógica que condena a Vila da Barca remonta à gênese do conceito de racismo ambiental. Cunhado por Benjamin Chavis Jr.4 como: a imposição deliberada de cargas ambientais tóxicas sobre grupos racializados, reforçando hierarquias herdadas do colonialismo.
É notória a ausência de equidade geográfica na distribuição dos riscos à saúde ambiental quando se intersecciona raça e renda: comunidades não brancas são alvo desproporcional de rejeitos perigosos5.
Em Belém o racismo ambiental opera como um braço da necropolítica6. A injusta ordem ambiental7 não é apenas desigualdade, é a atualização de um projeto colonial que hierarquiza corpos.
O lixo e os rejeitos estigmatizam lugares e pessoas, marcando-os como atrasados8. Na Vila da Barca, esse estigma é também racial: as palafitas, associadas a um imaginário de primitivismo justificam o abandono estatal. Enquanto no bairro mais “nobre” de Belém o Canal da Doca é tratado para turistas, o bota-fora da obra é despejado no entorno de famílias predominantemente negras. Essa geografia do descarte caracteriza as zonas de não-ser9, espaços onde a vida é administrada como resíduo.
A COP 30 ao se realizar em Belém coloca em xeque a retórica do desenvolvimento sustentável. Como parte do sistema-mundo10a conferência repete a divisão internacional do trabalho: líderes globais debatem metas abstratas em salas climatizadas, enquanto moradores de hiperperiferias lutam por saneamento básico, contra demolição de suas casas e desapropriações compulsórias. A classificação racializada dos sujeitos11 não é um resquício do passado — é motor do presente.
A Vila da Barca é o exemplo de uma necropolítica que destina rejeitos a territórios onde a população pobre e negra é tratada como parte da paisagem a ser degradada. Essa é a face concreta do imperialismo da desorganização que transforma a Amazônia em um laboratório de despossessão.
Arlan Seabra é cientista social, especializando em Educação Ambiental (NUMA-UFPA)
- Achille Mbembe é um filósofo, teórico político e intelectual público camaronês. ↩︎
- Cf. Aníbal Quijano – Colonialidad y modernidad-racionalidad (2004) ↩︎
- Cf. Porto-Gonçalves – A ecologia política na América Latina: reapropriação social da natureza e reinvenção dos territórios (2012) ↩︎
- Benjamin F. Chavis Jr. é um militante dos direitos civis, teólogo, autor, educador e defensor da justiça ambiental ↩︎
- Cf. Henri Acselrad et al. – O que é Justiça Ambiental. Ed. Garamont (2009 ) ↩︎
- Necropolítica é um conceito desenvolvido por Achille Mbembe para descrever como o poder político e social é exercido através do controle da vida e da morte ↩︎
- Cf. Henri Acselrad – Justiça ambiental e a construção social do risco (2002) ↩︎
- Cf. Mary Douglas – Pureza e perigo: ensaios sobre sujeira (1966) ↩︎
- Cf. Aquile Mbembe – Crítica da razão negra (2018) ↩︎
- Cf. Immanuel Wallerstein – Impensar las ciencias sociales: límites de los paradigmas decimonónicos (1999) ↩︎
- Cf. Aníbal Quijano – Colonialidad y modernidad-racionalidad (2004) ↩︎

Muito importante evidenciar a reais vivências da população da Amazônia com a venda de uma COP30 – pelo Governador – que só serve pra quem é de fora e quem realmente mora aqui é profundamente impactado pela construção de estradas que produz desmatamento intenso, e ironicamente, com a construção de árvores artificiais instaladas na cidade e despejos de dejetos nas periferias. Parabéns pela iniciativa de evidenciar o que realmente está acontecendo.
Texto riquíssimo dr verdades . Parabéns pelo brilhante artigo.
Lamentável a situação em plena, “Cop30”!
O racismo ambiental é um dos efeitos dos grandes projetos na Amazônia, aqui evidenciado pelas obras do Megaecento COP 30 que atinge a comunidade negra da Vila da Barca. Outras pesquisas importantes sobre o tema estão sendo desenvolvidas pelo GPA, como o caso do racismo ambiental produzido pelo Grande Projeto Urbano do Aterro Santiário de Marituba sobre a comunidade quilombola do Abacatal. Nossas pesquisas estão conectas com as lutas socioambientais legítimas. Arlan, parabéns pela importante reflexão crítica.