
A resposta para tal indagação parece muito clara: é contra, levando em consideração as obras de preparação para a chamada COP da floresta.
O que o Governador chama de janela de oportunidade, eu classifico de “estado de exceção”, parafraseando Raquel Rolnik1, sobre a preparação das cidades-sede para a Copa do Mundo em 2014, quando se viu a flexibilização dos processos licitatórios legais para a implementação e execução das obras estruturantes para este megaevento. O que se vê em Belém guarda semelhança.
Uma das obras, a Avenida Liberdade, expressa a prontidão do Governo do Estado do Pará para desmatar a Área de Proteção Ambiental da Região Metropolitana de Belém (APA Belém)2, afetar o modo de vida do Quilombo do Abacatal e pôr em risco o equilíbrio ecossistêmico deste território.
A inserção da Avenida Liberdade no rol de obras de mobilidade da zona metropolitana, não passa de uma estratégia do Governo do Estado para acelerar a execução de um projeto que se arrastava há mais de dez anos e agora é revestido como “projeto sustentável”; que nas palavras dos secretário de obras do Estado “deixará um legado para a população e, mais importante, atender bem às pessoas durante a COP30“.
O projeto da Rodovia Liberdade, como foi concebido em 2016, passou por pelo menos três alterações, para mitigar impactos ambientais e sociais, a fim de angariar financiamento de R$ 350 milhões para sua execução. A Comunidade Quilombola do Abacatal acompanhou as tentativas de execução do projeto, como no protesto realizado em 2021, quando se posicionou contra a construção da Rodovia e demandava participação popular nas discussões sobre a obra.
A COP30 é a “grande oportunidade” para a execução de uma obra que contraria a lógica da Conferência: discutir medidas redução de impactos ambientais para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. É ainda, uma janela de conveniência para apartar a opinião pública das discussões, fragmentar o ecossistema de uma área urbana ainda preservada e impactar socialmente a população tradicional que vive ao longo do traçado da via,
Luiz Diego Lima dos Reis é administrador, graduando em Geografia (UFPA)
- Urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP ↩︎
- Segundo o Estudo de Impacto Ambiental serão desmatados 68 hectares, aproximadamente de 70 campos de futebol ↩︎

Gerando Impacto Ambiental com desmatamento e migração dos pequenos animais e insetos da área desmatada.
A COP, como organizada e propalada pelo Estado, está repleta de contradições. Ser contra a floresta, ideia apresentada com bons argumentos no artigo, é uma delas. Parabéns Diego pelo excelente texto e reflexão.
Não existe nada mais contraditório do que desrespeitar área de proteção ambiental para promover uma conferência que discute, essencialmente, medidas para combater as mudanças climáticas. No Brasil, o problema não é a falta de recursos, mas sim a falta de vontade política mesmo. Quando querem, passam por cima de tudo. Parabéns pelo texto e pela importante contribuição, Diego!
Perfeita colocação! O que mais estamos vendo dentro desse processo pré Cop30 são medidas contrárias a proposta do evento. Vale citar ainda, a população da vila da barca, que se tornou o esgoto da Doca. Uma total falta de respeito! Afinal, para quem é esse legado que eles tanto dizem que irá ficar?