
A inclusão do açaí no rol das commodities transformou Igarapé-Miri em um significativo polo econômico , mas essa ascensão não vem sem desafios. A monocultura intensiva, embora traga benefícios econômicos, resulta em uma série de problemas socioambientais que precisam ser abertamente abordados.
A intensificação da produção de açaí tem levado à degradação das áreas de várzea, com a invasão de zonas de preservação permanente e a retirada de matas ciliares. Essa situação não apenas compromete a biodiversidade local, mas também reduz as espécies vegetais e animais que historicamente serviram como base alimentar para as comunidades ribeirinhas1.
A escassez de áreas preservadas e a perda de biodiversidade exigem ações imediatas para garantir a conservação do meio ambiente e a manutenção das práticas culturais que dependem da saúde do ecossistema. Se medidas não forem tomadas, corremos o risco de perdas irreversíveis que afetarão tanto a natureza quanto a identidade cultural das comunidades locais.
Além da urgência em proteger o meio ambiente, é fundamental reconhecer a necessidade de diversificação produtiva. A açaização2 da economia local tem impactado negativamente os saberes tradicionais e as práticas agroecológicas dos ribeirinhos, substituindo sistemas diversificados por monoculturas que ameaçam a identidade cultural das comunidades3.
Investir em sistemas agroflorestais que combinem o cultivo do açaí com outras espécies pode reduzir os impactos ambientais e melhorar a segurança alimentar das famílias locais. Essa abordagem não só promove a sustentabilidade, como fortalece a resiliência das comunidades frente às flutuações do mercado e às mudanças climáticas.
A transformação de Igarapé-Miri em um polo econômico através do açaí deve ser acompanhada de uma reflexão crítica sobre os impactos socioambientais dessa atividade. A diversificação produtiva e o manejo ecológico são essenciais para equilibrar o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental, a fim de garantir um futuro equilibrado para as comunidades tradicionais e para o ecossistema local.
Aline Gonçalves Batista da Silva é pedagoga, doutoranda em Gestão de Recursos Naturais (UFPA)
- A pesquisa de Hellem Almeida e colaboradores traça o perfil socioeconômico da produção do açaí em Igarapé Miri . ↩︎
- Açaização – Substituição da vegetação nativa para plantação somente de açaizeiros. ↩︎
- Cf. O aumento da produção do açaí e as alterações socioambientais na várzea de Igarapé Miri ↩︎

Muito Importante conhecer mais sobre o mercado do açaí, entender os desafios ambientais e socioeconômicos desse mercado que impacta a vida de muitas pessoas é com certeza muito relevante.
O modo de ribeirinho é afetado pelo grande projeto de monoculturas como o açaí, abordado no artigo, e dendê. No caso de Igarapé-Miri, Aline identifica muito bem os riscos e danos . Além a açaização ameaça até os hábitos alimentares. Parabéns Aline pela excelente reflexão e apontamento de alternativas.
Oportuno este espaço para dizer que os pesquisadores, em especial do Observatório dos Grandes Projetos na Amazônia devem, contudo, tomar como objetos de investigação os danos, riscos e conflitos socioambientais na sua dimensão rural, urbana e regional, mas não apenas para diagnosticas tais percalços, mas, sobretudo, apresentar soluções viáveis e que sejam concretizadas sem justamente gerar danos, riscos e conflitos socioambientais ou, no mínimo, ter o controle da situação. Afinal de contas, o papel do pesquisador é não apenas identificar problemas [e que são tantos e tantos], mas apresentar soluções [inclusive essa proposta poderia ser um dos critérios fundamentais para o ingresso nas IES]. vejo o açaí como a “bola” da vez nesse século XXI, mas certamente não se pode sair expandindo a sua base produtiva sem critérios e limites; ou que os investimentos públicos e empresariais migrem para este segmento bastante lucrativo; e sem considerar entre outros fatores socioambientais que devem ser agregados nesse processo, principalmente quanto a retenção de parte da riqueza gerada. Ou seja, a critica, nesse tempo de COP-30, é mais que louvável, desde que seja orientada para uma saída racional cientificamente e daí sim, teremos a sustentabilidade do açaí.
Ao contrário disso, tem estado que já está dizendo que as condições edafoclimáticas lá são melhores do que as do Pará; ou tem estado que já está cultivando o açaí na caatinga; ou ainda tem estado que o consumo de açaí [26 litros por pessoa/ano] supera de longe o do Pará [16 litros por pessoa/ano], sem falar que outras partes do mundo já começou a cultivar o fruto amazônico, enfim o estado pode perder a posição de maior produtor de açaí do mundo, caso a quem compete não venha remediar os obstáculos advindos do aumento da produção do açaí no Pará e regiões similares da Amazônia.