A COP 30 – No contexto das mudanças geopolíticas atuais

 

Estamos em festa, na espera de um imenso evento internacional que será acompanhado de fartos presentes e aplausos dos “mestres do universo” cujos representantes chegarão com seus jatos particulares, acompanhados com sua gigantesca comitiva de “especialistas em Amazônia” e salvadores do planeta com suas orientações e opiniões fechadas sobre como devemos nos comportar para salvar a Amazônia.

SIM, podemos e devemos tirar os proveitos positivos desse megaevento, tanto para Belém quanto para a Amazônia em geral. Precisamos dos recursos disponibilizados com a esperança de que sejam usados realmente em benefício da população de Belém ou talvez da Amazônia toda.

Mas nossa caminhada através dessa “tempestade midiática” será pavimentada de espinhos perigosos, especialmente para a intelectualidade amazônica que terá o difícil papel de ser o interlocutor entre os complexos assuntos debatidos neste megaevento e uma sociedade cuja luta diária para sobreviver não oferece muito espaço para reflexões sobre reduções de CO2 e mercados de carbono…

A COP 30 de Belém acontecerá num momento histórico peculiar. Vivemos um verdadeiro terremoto geopolítico que modifica rapidamente o cenário mundial. Tensões geopolíticas e guerras estão aumentando na medida em que cresce a agonia política e econômica do império americano e dos antigos donos coloniais do mundo, a Europa, hoje vassala incondicional dos EUA.

O olhar e os interesses deles em relação a esta imensa e (ainda) riquíssima Amazônia são diferentes do olhar e dos interesses do povo das Amazônias. Apesar do discurso aparentemente consensual que “todos queremos salvar o planeta”, para os países do chamado Sul-Global, essa salvação passa necessariamente pela implementação de um projeto nacional e soberano de desenvolvimento econômico, social e científico-tecnológico, capaz de desenvolver as forças produtivas ao nível de uma sociedade moderna, sem miséria social e sem as garras do capital financeiro asfixiando nosso desenvolvimento.

E é exatamente aqui que as mentes se separam e estamos chegando ao ponto central do problema: os últimos 500 anos demonstraram de forma cristalina que os países atualmente considerados “desenvolvidos” da Europa e EUA, e que hoje querem nos ensinar como cuidar do planeta, desenvolveram-se através do brutal apoderamento colonial e neocolonial das fontes de ENERGIA FÓSSIL e dos RECURSOS MINERAIS do planeta. As Forças Armadas dos EUA sustentam cerca de 900 bases militares e são uma das maiores consumidoras de petróleo justamente para garantir o domínio sobre as fontes energéticas do mundo.

Vivemos o início de uma grande mudança política global em que a parte historicamente excluída, os países da Asia, África e América Latina, que constituem a maioria da população mundial, estão exigindo sua parte dos recursos e das fontes de energia para poder tirar sua população da miséria econômica e social.

Há, portanto, um conflito de interesses econômicos e agendas políticas claramente estabelecidas entre o bloco EUA/UE e o resto do mundo, que não pode ser escondido e esquecido quando entramos no debate sobre mudanças climáticas, descarbonização e a redução da energia extraída das fontes fósseis.

Sim, é urgente combater a destruição da Amazônia e ninguém melhor que o próprio povo amazônico sabe disso. Mas para tal precisamos de um modelo econômico diferente e inteligente de apropriação racional e sustentável dos recursos desta gigantesca biodiversidade. 

É obvio também que a humanidade precisa encontrar fontes energéticas alternativas, sem poluição, mas se elas já existissem, os países “desenvolvidos” já as estariam usando e nós provavelmente pagaríamos elevados royalties para usá-las.

Assim, para bilhões de habitantes dos países do Sul-Global, que sobrevivem em favelas e nas ruas das megacidades, que lutam para ter um prato de comida a cada dia, morrem jovem por desnutrição, pelo crime organizado e das intermináveis guerras, a ameaça da chamada crise climática, não poderá ter, a mesma prioridade que possa ter para os privilegiados desse mundo.

Quem nunca teve justiça social ou econômica, a “justiça climática” certamente carecerá de sentido.

Enquanto acadêmicos e intelectuais amazônicos, educados pelas academias europeias e americanas, corremos os perigos de nos tornar admiradores e defensores involuntários dos seus valores. Mas querendo ou não, fazemos parte da “outra parte da humanidade” e nossa voz e nossa posição nesse debate que se aproxima através da COP seriam ouvidas no mundo todo, pelo menos no curto espaço da duração deste evento. Portanto, precisamos decidir se vamos falar para os povos do Sul-Global ou para os ouvidos dos (ainda) donos do mundo.

 

Norbert Fenzl
Prof. do Núcleo de Meio Ambiente (NUMA) da UFPA
E-mail: nfenzl@gmail.com

2 comentários em “A COP 30 – No contexto das mudanças geopolíticas atuais”

  1. Professor Fenzl, parabéns pela análise! Colocar a COP 30 na conflito socioambiental global em torno da apropriação dos recursos naturais, nos fazem dar outro sentido para a participação brasileira e amazônica.

  2. Muito bom Professor Fenzl, parabens! Precisamos de COPs que priorizem discussões sobre a Paz mundial, a Fome global e a Biodiversidade do planeta. A mudança climática, embora importante, deve ser considerada dentro desse contexto mais amplo, pois, diante dessas três prioridades, é apenas uma parte do desafio global que enfrentamos.
    José Junior
    Pesquisador GPA – Doutorando/NUMA/UFPA

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